O primeiro português a representar a Universidade em Istambul, e eu sou... (o tipo que todo o mundo conhece, desorganizado, desorientado)... bom, é em dias destes que eu fico em profunda meditação questionando o caminho feito... Eu deveria ter tido a vida dos simples, dos que cultivam a horta no campo, pastoreiam as ovelhas na serra, leiem um livro devagarinho e prevêm o tempo para o dia seguinte só de olhar para o céu.
Todos procuramos ser felizes à nossa maneira. Eu não sou feliz, o que não é preocupante, é um estado de alma transitório. O pior é ter sérias duvidas que esteja no caminho certo para o ser. Continuo a dizer "não é isto que quero fazer, não é esta a vida que eu quero para mim". Preciso de uma mulher, que me dê alento, que me desperte para o que tenho de fazer. Que me diga, "estou aqui por ti".
Quando acordas de manhã, podes pensar "hoje vou fazer isto e aquilo".
Não acordes a pensar "para quê e para quem eu vou fazer isto e aquilo?". Arriscaste a virar para o lado e dormir mais um bocado. A minha resposta é "Faço isto e aquilo por mim, e interessa muito pouco. Interessa-me, talvez, mas não tanto que não possa dormir mais um bocado."
Assim, vou deixando de sair com os amigos. Vou deixando de tentar engatar uma outra miúda. Vou faltando a aulas para as quais tenho menos entusiasmo. Vou deixando de sair à rua porque está frio ou a chover. Vou deixando de jantar, porque não tenho fome. Vou deixando de viver, porque não tenho qualquer entusiasmo em faze-lo.
É um pensamento perigoso. Lisboa é uma cidade estranha de facto, porque aqui as pessoas são ainda mais sozinhas, mais desconhecidas entre si. Dia de Natal eu não celebrei. Fui passear à beira do rio, porque estava só, e junto ao rio continuaria só, mas em paz e harmonia. Mas estava lá um milhar de pessoas sós, andando de um lado para o outro. Nada que eu pudesse associar a um dia de encontro com a familia. É também a cidade dos velhinhos. São metade das pessoas que vivem em Lisboa, não aquelas que chegam de manhã e regressam a casa ao fim da tarde. Os que vivem em Lisboa, metade, são velhos.
Por outro lado, a vida ficou cara, e tudo o que faça e por mais que corte, vou vivendo miserável por cá, e sem hipótese de melhor remedeio. A propina é o dobro, a casa mais um terço do preço. Já não uso transportes, não saio à noite, mudei tarifário do telemóvel e da internet. Deixei de treinar capoeira, deixei de usar o aquecimento em Março. Acabei por aceitar o que não me parecia tão obvio. Se tivesse namorada, não teria dinheiro para estar com ela. Nem sair, nem fazer nada de nada. Deixei de procurar. Se calhar, nunca procurei. Se calhar, sempre tive a esperança de que uma mulher se apaixonasse por mim enquanto esperava por um autocarro na paragem.
Bom, mais um mês assim. Se qualquer pessoa me perguntar neste momento quanto vale este curso para mim, eu diria que o Banco lixou-me bem. Se não fosse o banco, eu já teria desistido desta merda à muito tempo, se é por mim, dá-me igual ao litro, ter a quarta classe ou duas licenciaturas e um mestrado. O meu objectivo sempre foi ser feliz. A carreira, a carreira! Daqui a pouco sou tão velho como os professores que me dão aulas, a acreditar que um dia o dinheiro vai-me trazer, finalmente, companhia. Que ideia esta de procurar na Universidade um futuro! Daí que Istambul surja num momento crucial, para me dar algum alento. Se nada dá emprego nesta velha Europa, ou se emprego é algo transitório e a prazo, então vai sendo altura de sair, de vez, desta terra triste.
Fernando Pessoa tinha aquele heuterónimo, Álvaro de Campos, onde ele percorria uma outra vida mais simples, ligada à terra, a um mundo mais leve, um tempo mais lento e de uma simplicidade singela.
Parece que a juventude seca e se perde no meu corpo. De repente, sinto-me cansado. Farto de correr. Como se de um momento para o outro, me recusasse em dar mais um passo. Apetece dizer "BASTA" Estou de saco cheio, farto! Agora quero ir para casa!
Quero voltar a uma mulher que saiba cozinhar, quero comprar o passe social, para ir às compras na sexta-feira, quero 3 crianças em escadinha, quero umas árvores para elas treparem, e mercuriocromo para resolver os acidentes. Quero sair para o mato e ir à pesca com um ou dois velhos amigos, ler o meu livro na varanda, sem pensar em mais nada para além do livro. Quero trabalhar como jardineiro, ou varredor, ou pintor, ou ainda fazer esculturas em gesso, pedra ou papel, só para oferecer prendas originais em troca das garrafas de Wisky no meu aniversário e natal, e fazer pão num forno construído por mim. E fazer uma fogueira no São João que obrigue os bombeiros a intervir e depois acusar o mais velho "sacanas dos miúdos, eles não me obedecem!" e depois comprar-lhe qualquer coisa em jeito de suborno.
Desperto, regresso. Respiro fundo. A minha vida não é essa, eu sai desse caminho desde que saí daquela ilha. "'Bora lá." "'Bora lá, bebe um copo com água se tiver de ser, mas 'bora lá" Olho em frente e dou um passo. Volto a correr, na mesma estrada.